É um sábado inicio de uma noite de inverno. Não como as dos filmes hollywoodianos cheias de neve frio e solidão. É apenas um inicio de inverno na América Latina, o que sugere um clima agradável, levemente frio (o suficiente para os mais entusiastas usarem o chuveiro no mais quente), um céu diurno de um azul lindíssimo e um noturno muito estrelado. Existe o tédio também, mas este foi quase opcional. Afinal morar perto de um estádio em dias de jogos importantes faz com que pessoas queiram evitar o transtorno de sair de casa.
O dia passa sem chamar atenção, e o fim dele pede um banho, como todos os dias muito abaixo da linha do Equador. E ele vem. A toalha, a nudez, o shampoo, condicionador, o sabonete, tudo preparado. Chegada a hora de encarar as primeiras porções de água gelada antes que a eletricidade e a termodinâmica fizessem suas mágicas, um olha para cima, para o chuveiro e uma surpresa. Eis, entre tantos daqueles mosquitos de banherio, uma abelha, lá parada, imóvel. Ai vem o receio de ligar o chuveiro, o receio da fúria mortal de tão pequenino inseto. Mas diante do barulho e de toda água, apenas indiferença.
Mal o banho havia começado, o olhar pra cima mostra a não presença da abelha. "Certamente voou pela janela e se libertou" é o pensamento que ocorre. Porém ao fim do banho outra surpresa, agora nada agradável.
Morte
Eis no chão, sufocada talvez pelo vapor, ou sabe-se lá a causa, a abelha caída, seus pares de patas pro alto, já inerte, morta.
Um banho de inverno foi seu fim, mas a morte, sempre que aparece, carrega consigo uma profundidade inigualável.
A ficção me presenteou com grandes personagens que encaram a morte de frente sem ceder a ela. Edward Elric, Asakura Yoh, Aang, Bruce Wayne.
Em meio mundos cheios de guerra, totalmente imersos na guerra maniqueísta do bem e do mal, eles escolhem não ceder aos caprichos da morte, não matam e tentam resolver tudo a sua forma, por mais que seja isso impossível (Arkhan sempre tem fugitivos)
E nós, em nosso mundo repleto de tons de cinza, onde nada e tão simples, nós resolvemos não ceder ao capricho da morte e não damos a ela motivos para se achegar a nós (nada que a impeça). Ninguém hoje (ou talvez algumas pouquíssimas pessoas) traz consigo motivos para morrer. Os samurais morriam por seus senhores. Os espiões da KGB e da CIA quando pegos morriam por seu pais. Até a abelha, se não fosse tal fato, talvez morresse num ataque suicida por sua colmeia.
Mas nós, os cidadão civilizados, não temos motivos pra morrer. Não há uma causa, uma crença que nos leve a caminhar em frente encarando a morte nos olhos, sabendo que vale a pena.
E se não existe uma causa para morrer, numa conclusão maniqueísta como a dos quadrinhos e anime, também não há razão para viver. Dia após dia, existimos, sem muita intensidade, sem muito sofrimento, sem muita alegria, sem muito ...
Fui ao meu quarto, peguei uma pinça para retira-la do chão. Não há terra em meu apartamento onde pudesse fazer um enterro. Joguei-a no vaso e lá se foi ela, inerte, pelo encanamento, sabe-se lá pra onde.
E minha vida continuou.
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