Adoro o meu país. Não pelo governo, muito por sua geografia
e principalmente pelo seu povo. Chega a ser absurdo. A brasileiragem é algo
extraordinário.
Terça-feira. Depois de uma tarde toda estudando sou expulso
da biblioteca, pois é hora de fechar já. Chove, e há uma prova de cálculo no
dia seguinte a me esperar. O ponto lotado. Pontos lotados e o corredor de ICEx
me levam a crer que existem pessoas totalmente despreparadas para viver
coletivamente (um rapaz gordinho do meu lado quase furou meu olho com seu
guarda-chuva algumas vezes). Eis que chega ao tão esperado S53. Nos momentos da
vida que você pensa que pegou o busão mais lotado da sua vida então você pega o
ônibus mais lotado da sua vida. A situação estava tensa (hora que você lê
ouvindo a voz do Gil Gomes). Ter lugar para se segurar ela luxo para poucos. O
motorista no desespero deixava as pessoas entrarem pela porta de trás. Eram
mais de 22h00. As pessoas olhavam umas as outras tensas...
...mas eis que a brasileiragem surge, e no meio da desgraça,
encontra-se graça! No meio da viajem, um zum-zum zum (um com hífen e outro sem
pra não errar). Risadas, piadas, gracinhas. Todos se esqueceram que a densidade
de pessoas por metro quadrado estava além da capacidade lógica do ser humano e
resolveram ser felizes ali mesmo. Quando desci do ônibus (pela porta da frente
por que não dava pra ir até o fundo) estava bem. Conforme o busão foi se
esvaziando, eu também fui, e sai de lá com um sentimento de descanço, uma paz
quase que ... divina! Paulo Brabo e Ed Rene Kivitz me fazem pensar que se Deus
se manifesta na natureza, é ali também que Ele se esconde. E por que não fazer
o mesmo no fundo de um ônibus lotado, no fim da noite de uma terça-feira
chuvosa ? Talvez um velhinho que ao perceber que está sendo olhado, dá uma
piscadela, abre um meio sorriso, reclina a cabeça contra o vidro e volta a
fingir que está dormindo. Ou a criança no colo da mãe com os olhos curiosos
sobre você. Ou a senhora que conta a história da vida dela enquanto está
sentada ao seu lado. Ou você quando se oferece a carregar a bolsa do estudante
cansado. Sejam suas motivações religiosas, pessoais ou puramente aleatórias, há
algo de divino, de gracioso em toda essa brasileiragem que teima em surgir nos
momentos mais inoportunos e inesperados.
“...E verás que um filho teu não foge à luta!”
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